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Pamplona é uma festa!

Querido amigo, hoje estou em Burgos. Cidade belíssima, aquela que você mais tinha vontade de conhecer, no Caminho. Neste momento, estou na praça, em frente à imponente Catedral, sentada atrás de uma taça de vinho tinto, de Rioja, e uma porção das famosas e deliciosas morcillas de Burgos. Mas vou falar de outra cidade igualmente especial: Pamplona.

Quando estava saindo de Villalba, era sábado, fazia muito sol e o céu era daquele azul a que me acostumei a ver em Navarra. Passei pela praça, repleta de crianças, jovens… gentes de todas as idades, e, lá, se apresentava um grupo de músicos, tocando jazz. Não resisti e sentei-me em um banco. Sabia que tinha um caminho curto a percorrer, porque já me decidira, previamente, a parar em Pamplona. Observei que outros peregrinos passavam, firmes e decididos, a fim de enfrentar a jornada do dia. Não paravam, como eu. Isso me fez ter dúvidas quanto à minha condição de peregrina. Por um momento eu me senti culpada, como se estivesse cedendo a tentações. Mas foi só por um momento, Cetê. Olhei à minha volta e achei impossível que toda a alegria e harmonia ali presentes poderia ser algo contrário ao espírito do Caminho.

Um pouco antes do meio-dia é que peguei a estrada. Aproximadamente, uma hora e meia de caminhada tranquila e cheguei em Pamplona, em tempo de acompanhar toda a ebulição do sábado. Cetê, Pamplona é uma festa! Aliás, sempre achei interessante como os espanhóis sabem aproveitar a vida. A maneira como dividem o dia de trabalho, das 10 às 14 horas, voltando às 17 para encerrar às 21 horas — isso na maior parte das atividades. O jeito como ocupam o espaço público — ruas, parques, praças… As praças, na Espanha me fazem pensar na polis grega, na ágora, onde tudo acontecia. Sim, já vi tudo isso em outros lugares em que estive, mas nunca com a intensidade que sempre percebi na Espanha.

Decidi que em Pamplona ficaria em um hotel. Os albergues fecham às 22h e eu queria ter a liberdade de voltar na hora que me desse vontade. Escolhi um pequeno hotel na Calle San Nicolás, lugar buliçoso, de bares e restaurantes, onde tudo parecia acontecer. Deram-me, justamente, um quarto no primeiro andar, com uma pequena sacada para a rua. Um privilégio que adorei, pois, mesmo quando me recolhia, continuava inclusa na efervescência dos acontecimentos. Guardei a mochila e fui para a rua. Não tive vontade de visitar templos, igrejas ou coisa parecida. Queria sentir a cidade. Fui à Plaza del Castillo, mas, embora houvessem muitas pessoas por ali, principalmente crianças, ainda não era a hora certa. Era a hora da siesta, quando a cidade está mais vazia.

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Depois saí a andar a esmo e fui dar na Ciudadela, um jardim imenso, no interior de uma fortificação do Séc. XVI e XVII. Bancos, fartas sombras, flores… Um lugar bastante agradável.

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Quando saí da Ciudadela, reparei que havia um movimento diferente, nas ruas, e que essas estavam bastante policiadas. Segui a direção para onde caminhava a maior parte das pessoas e fui dar em uma praça, onde acontecia grande manifestação. Em princípio, não compreendi qual era o mote da manifestação. Percebi que o tema era aborto. Conversei, então, com uma das manifestantes e ela me explicou que estavam ali para se colocar contra a tentativa, em processo, de revogação da Lei do aborto livre. O mais interessante de observar era, justamente, o números de crianças e mulheres grávidas, presentes ali. O que se achava em questão, portanto, não era uma reivindicação pelo aborto, mas pelo direito de decidir sobre o próprio corpo. Fiquei com elas, pois estava e sou solidária a esse movimento.

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Após o término da manifestação, como já estava sentindo fome, retornei à Calle San Nicolás. Mas, claro, tive que me adaptar aos hábitos dos espanhóis: àquela hora (em torno das 17h30min), apenas pintxos, tapas, bocadillos… E vino ou caña (chopp). Comida, disse-me a garota que estava servindo, só após às 19h. Mas, convenhamos, alimentar-se de tapas e vino não é sacrifício para ninguém. Porém não segui o costume local, que é ficar em pé, em torno de barris dispostos nas calçadas. Ao longo das ruas, observa-se que esse costume é disseminado em Pamplona, mas não apenas em Pamplona.

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Voltei à Plaza Del Castillo, que então estava absolutamente viva! Teve momentos que senti muita falta de alguém com quem eu pudesse trocar ideias. As viagens, Cetê, causam revoluções em nós, como você bem sabe. Fazê-las sozinha é um desafio e um aprendizado. Mas, sem dúvida, faz falta o partilhar. Estava, ali, sentada, um tanto ou quanto tristonha, quando vi a pequena Manuela e seu sorvete. Ela chamou minha atenção e percebeu rapidamente isso. Passei a fotografá-la e não resisto, tenho que mostrar a você.

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Como Manuela, outras crianças chamaram minha atenção e me devolveram a tranquilidade. As crianças de Pamplona.

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Voltei à Calle San Nicolás um pouco antes de escurecer. Caminhei um pouco por ela e resolvi comprar um lata de cerveja, um pão e um tanto de frios, e voltei ao hotel. De lá, pude observar a movimentação da rua, que se estendeu até às 6h do dia seguinte. Ou seja, praticamente não dormi. Foi por esse motivo que acabei saindo tarde, no dia seguinte, para a caminhada. Mas, dizem por aí, nada é por acaso. Sair tarde proporcionou novas relações no Caminho. Isso eu conto na próxima, amigo querido. Tenha uma boa noite, Cetê!

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Categorias:Uncategorized

deaconti

3 respostas

  1. Brigada por nos deixar participar dessa tua maravilhosa e saborosa aventura….tuas palavras têm cor sabor e textura….grande bj….espera….y el “guapote”?….onde ce deixou?

    Curtido por 1 pessoa

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