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A língua é minha pátria e eu tenho mátria e quero frátria

Querido amigo, valeu a bronca! Mas não foi esquecimento, não. É que, por aqui, o Tempo fica mais curto, tantas são as coisas que temos que fazer, além do caminhar. Além disso, havia algo que estava me contendo. Lembra-se que eu havia comentado sobre as provas de filosofia que eu ainda teria que fazer? Pois é, eu não as fazia e elas ficavam ali, entravando minhas cartas. Você sabe, eram um compromisso que eu tinha. Digo eram e tinha, porque me livrei delas, hoje de manhã! Você nem pode imaginar o tamanho do peso que tirei das costas. Foi tanto, que hoje caminhei mais leve, mais lépida.

A última vez que escrevi, estava em em Villalba e contei sobre a caminhada de Roncesvalles a Zubiri. Hoje estou em Los Arcos e falarei sobre um pouco mais do que aconteceu.

Em Zubiri, no albergue, conheci José. “How are you from?”, disparou ele, enquanto eu arrumava o beliche em que iria dormir. “Brasil”, respondi. José abriu um largo sorriso, “Eu também!”. Veio-me, em seguida, a música de Caetano, à cabeça…

Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões

É engraçado isso, Cetê, o porto seguro da língua. Sim, é possível comunicar-se com qualquer pessoa e o desconhecimento da língua do outro não é empecilho, quando se trata de trocar informações. Fazemos isso o tempo todo, por aqui, convivendo, diariamente, com espanhóis, alemães, franceses, austríacos, coreanos, ingleses, australianos, noruegueses, norte-americanos… Mas não vivemos de informações. A troca de ideias exige mais que o conhecimento básico de outra língua, mais os gestos e as expressões faciais e corporais. Por isso, quando José disse “eu também”, uma simpatia mútua foi estabelecida.

Eu estava muito cansada, com frio e a única coisa que eu desejava era deitar-me em meu canto e dormir. Estava sentindo fome, porém a ideia de sair novamente era insuportável. Mas José, que já havia jantado, ofereceu-se para me acompanhar e adquiri a coragem necessária para meter-me, novamente, em minhas botas e caminhar mais 100m. E lá fomos nós. Jovem, recém formado em Cinema, José veio à Europa para completar um processo de reconhecimento de cidadania italiana. Aproveitou, então, para esticar e fazer o Caminho. Enquanto eu saboreava um delicioso menu do peregrino, tomando um vinho de Navarra, conversamos sobre o Caminho, sobre as dificuldades de se iniciar uma vida profissional, sobre cinema, enfim, sobre a Vida. Na manhã seguinte, José levantou-se muito cedo, despediu-se, desejamo-nos “buen camino” e ele seguiu viagem. Não nos encontramos mais. Acredito que ele esteja dois ou três etapas à minha frente. Na realidade, José foi o início de uma série de encontros com brasileiros, que têm sido bastante importantes, nessa caminhada, como você vai poder verificar.

Saí de Zubiri em direção a Pamplona, para percorrer 22,3Km. Já não chovia, mais, como no dia anterior. No início, apenas uma garoazinha fina. Depois, o Sol se abriu, tornando o dia bastante claro e agradável. Grande parte do percurso dessa etapa foi a continuação do que eu havia visto no dia anterior. Muita mata, rio, nascentes, pastos… Vez por outra, cruza-se um vilarejo. Foi em um desses vilarejos, logo após Larrasoaña – pela qual passei, sem entrar -, que, novamente, ouvi a doçura da nossa língua, misturando-se a gorjeios de pássaros… “Você é…” “Do Brasil!”, respondeu-me O animado Toninho. Toninho e Bia, que não apenas eram do Brasil, como, na sequência fui saber, de Sorocaba! Sim, Cetê, da nossa cidade. Rimos, bastante, da coincidência e de muitas das aventuras semelhantes que estávamos passando, em nossa jornada. Eles me falaram de Valentina, outra brasileira com a qual provavelmente eu me encontraria, segundo eles. Nos despedimos e cada qual seguimos o Caminho, conforme nosso próprio ritmo. Caminhei, sozinha, mais uma hora e meia, mais ou menos, quando, na entrada de um povoado, logo após a ponte, à esquerda, em um cantinho muito agradável, vejo Toninho e Bia, confortavelmente instalados, os pés de fora, comendo batatas fritas, junto a outros peregrinos. Não resisti e parei ali. Ao sons de passarinhos, do rio que corria em frente, conheci Valentina, do Rio de Janeiro, mais duas garotas venezuelanas. Pedi uma taça de vinho tinto e um pacote de batatas fritas e ficamos ali, conversando, tranquilamente.

Cetê, é interessante como a gente se abre às pessoas que nunca tínhamos vimos antes. A coincidência do Caminho, ainda que cada um de nós tenha um propósito individual ou o esteja procurando, mais o solo comum da língua nos faz congregar e dividir. Toninho e Bia seguiram à frente e fiquei mais um pouco com a simpaticíssima Valentina. Falamos das nossas vidas, trocamos experiências, para depois nos despedirmos. Não os vi mais, mas sei que estão por aí e que não é impossível reencontrá-los aqui ou em qualquer outra parte de Mundo.

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Continuei a caminhar e teria passado ao largo de um belo sítio, mão tivesse parado, um instante, para descansar. Quando parei, fui conferir e-mails e recados no Facebook. É um luxo do qual fiz questão: acesso à WEB a qualquer momento que eu desejar. Li, então, o recado do meu amigo Miguel, aqui no blog, preocupado com o que eu relatara sobre minha viagem a Valcarlos . “Faça o caminho se deixando ser tomada pelo encantamento incomum do local e pela sensação de viver alguma coisa inteiramente nova e diferente. Pense que atingir seu objetivo acontece durante todo o percurso e não apenas no seu ponto de chegada.” Estava com as palavras dele cravadas na alma, quando, já saindo de Zabaldina, um pequeno povoado, vi a placa que indicava uma igreja do século XIII, a Iglesia de San Esteban, lá no alto do morro. Eu teria passado ao largo dela, principalmente por estar cansada, mas alguma coisa me fez voltar e subir em direção à igreja. Ela estava fechada, porém, alguns minutos após a minha chegada, surgiu uma senhora, com uma chave imensa, do mesmo tamanho do seu sorriso. Abriu a igreja e, enquanto eu a apreciava, passou-me um belo texto, que falava sobre o Caminho. Sentei-me no banco, para lê-lo. De repente, o espaço encheu-se de canto gregoriano. Você sabe que não sou mística, Cetê, mas algo aconteceu ali. O peito encheu-se de um sentimento que eu não saberia explicar e as lágrimas escorreram, sem vergonha ou impedimentos. A senhora pousou, levemente, a mão no meu ombro e apontou uma porta. “Suba!”, disse ela, de modo firme. Era uma escada em caracol, que levava à torre da igreja. Lá, dois sinos. Ao lado do sino menor havia uma placa onde dizia para badalar o sino, uma única vez, e escutar o ressoar, até o final. Ali em cima, avistando o vale, escutando os pássaros e o sino, agradeci a Miguel e suas palavras.

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Retomei o caminho. O Sol estava bastante forte e isso dificultava avançar. Quando há sombras, tudo fica mais fácil, mas há momentos em que se olha à frente e não há uma árvore, apenas mata rasteira. De qualquer forma, eu estava no alto de um vale e, a partir de dele, tinha uma vista maravilhosa. E outra coisa que eu estava apreciando bastante era estar só, nesses momentos. A sensação de não haver mais ninguém é ótima, ainda que, muitas vezes, a vontade de compartilhar o momento seja grande. Quando desci o vale, encontrei-me com aldeões que caminhavam em direção à cidade. Perguntei-lhes onde ficava Arre e um deles me disse “Perto. Um quilômetro e meio à frente.” Quem nunca caminhou não sabe o que é estar cansada e alguém lhe dar essa resposta. Um quilômetro e meio é muito caminho pela frente. São descidas, subidas e o Sol em cima da gente. Já havia desistido de seguir até Pamplona, cerca de 3,5Km depois de Arres. Ficaria ali mesmo, no primeiro albergue que eu encontrasse.

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De cima, avistei Arres, Villalba, e fiquei encantada com o que via. O rio, a bela ponte medieval, jardins, árvores, bancos espalhados por todos os cantos, ciclistas, crianças, jovens, idosos… Vida! Reanimada, desci o restante do caminho e fui até a ponte, onde fiquei, por meia hora, observando o entorno. Depois entrei na cidade e me dirigi diretamente ao albergue, que ficava, exatamente, à beira do rio. Ali, tive a sorte de ficar sozinha, no quarto, o que possibilitou um bom descanso. À noite, desci apenas para comer o menu do peregrino. No dia seguinte, resolvi seguir a Pamplona, onde vivi momentos interessantes, que ficarão para o próximo post.

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É isso, querido amigo! Espero não demorar tanto para contar o que aconteceu em Pamplona.

Boa noite, Cetê!

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Categorias:Uncategorized

deaconti

6 respostas

  1. Deinha aproveites cada átimo desses mágicos momentos em que eleva tu’alma mais para perto, bem mais perto de Deus … sê iluminada como é tu’alma doce amiga querida _ beijos e abraços de laços em entrelaços ___ mariaRegina

    Curtido por 1 pessoa

  2. DEA !LINDAS FOTOS , LINDOS LUGARES , VOCÊ SABE SE EXPRESSAR E ESCREVER MUITO BEM. VIAJAR ATÉ AI É PRIVILÉGIO PRA POUCOS . NÃO É PRA QUALQUER JACU DO BREJO NÃO!! !CONTINUE FIRME NA FÉ E DETERMINAÇÃO . ESTEJA COM DEUS SEMPRE .. BETO!

    Curtido por 1 pessoa

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