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A condição humana

Querido Cetê, hoje de manhã, quando escrevi para você, estava em Villalba. Agora, estou em Pamplona. Andei bem pouco, hoje, mas tive que parar por aqui por duas razões: primeira e menos importante, um dos meus dedos do pé direito inflamou; segunda, seria impossível apenas passar por Pamplona. Mas essa história eu vou contar outro dia. Agora vou contar o que aconteceu, depois que deixei Roncesvalles.

Roncesvalles estava escura e fria, quando eu a deixei para trás. Havia visto pouco, do monastério, porém a chuva não deu trégua e resolvi seguir em frente. A intenção era caminhar até Larrasoaña, mas acabei parando em Zubiri. Apesar de chover durante todo o trajeto e ter sido, até agora, a maior distância percorrida, foi, de modo geral, uma caminhada tranquila.

Logo após Roncesvalles, há um vilarejo, Burguete (Auritz). Entrei e acabei me distraindo, enquanto fotografava as casas, a rua. À minha frente iam três peregrinos, que eu havia conhecido em Sain Jean. Eles entraram em um farmácia e eu prossegui. Burguette é constituída, praticamente, de uma única rua, que desemboca em uma estrada de pista simples. Procurei a marca do Caminho, mas não a encontrei, então resolvi voltar atrás, em busca dos meus companheiros de viagem. Também não os encontrei mais. Retornei à estrada, pois me parecia ser a única opção. Eu já havia caminhado uns 100 metros, quando, de repente, um automóvel para ao meu lado, exatamente sobre a pista e, de dentro dele, salta uma mulher, esbaforida, acenando para mim. “Senhora, senhora, está perdida? O caminho… O caminho não é por aqui!”. Ela pegou no meu braço, me puxou para o outro lado da estrada e me apontou uma pequena ponte, que estava escondida por trás de um barracão. “Senhora, o caminho é por ali!” Eu estava perplexa. O carro sobre a estrada, com a porta aberta e a condutora ali, tratando de me recolocar no Caminho. Agradeci, emocionada. Ela segurou minhas mãos, apertando-as, e disse o conhecido “Buen camino!” Virou-se e voltou correndo para o carro, que já tinha, atrás de si, parados, dois outros automóveis.

De volta ao caminho, sobre a ponte indicada pela gentil senhora, reencontrei o casal de franceses que havia me resgatado em Valcarlos. Nos cumprimentamos, entusiasmados, trocamos algumas palavras e nos despedimos, pois nossos ritmos são bastante diferentes. Daí em diante, até chegar em Zubiri, não avistei qualquer outro peregrino.

O caminho Roncevalles-Zubiri é constituído, em grande parte, por bosques e zonas de caça. Duas ou três vezes cruzamos alguma estrada para, em seguida, voltar à vegetação. Passei por Larrasoaña, mas apenas tangenciando-a. No mais, foi um caminho solitário, no qual fiz uma única parada mais longa, em um povoado, quando entrei num bar e pedi uma taça de vinho, pois estava sentindo bastante frio. Choveu sem parar um instante sequer. Ainda assim, eu me senti confortável e bastante atraída pela beleza dos espaços.

Apenas a parte final da caminhada apresentou maior dificuldade, com descidas mais íngremes, e solo de pedras bastante escorregadias. Para evitar quedas, tive que andar pé ante pé, lentamente, estudando como seria cada passo. Quando cheguei a Zubiri ainda havia tempo de avançar até Larrasoaña, 5Km á frente, mas eu me encontrava muito molhada e a temperatura estava caindo rapidamente. Ao atravessar a ponte, logo enxerguei o albergue e não precisei, mais, pensar sobre o assunto.

Cetê, eu ia quase me esquecendo de contar um episódio ou, vai ver, acabei deixando para o final, de propósito. Lembra-se quando comentei com você que uma das minhas preocupações, quando pensava em caminhar durante horas em estradas e no meio da mata, era quanto às necessidades fisiológicas? Pois então, ao caminhar sozinha, em meio à natureza, tudo fica, como consequência lógica, mais natural. Eu sei é que, a certa altura da caminhada eu estava com muita vontade de urinar. Eu tinha avistado uns telhados e achei que lá poderia haver um bar ou algo assim. Mas, ao passar em frente, vi que se tratava de um celeiro. Caminhei mais um pouco e resolvi urinar por ali mesmo. Tirei a mochila, arriei as calças e, quando ia começar, vejo um senhor, um campesino, a uns 10m à minha frente. Pega, literalmente, com as calças nas mãos, a única coisa que me ocorreu na hora foi gritar para ele “Perdóname, señor, és la condición humana!” Ele abanou com a mão e respondeu, sem parar de caminhar “Sí, la condición humana! Buen camino, peregrina!”

Pois é, meu amigo, essa é a condição humana. Ao mesmo tempo em que extrapolamos limites, que nos recriamos e podemos reinventar o Mundo, estamos submetidos às necessidades inexoráveis do nosso corpo.

Boa noite, Cetê!

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Categorias:Uncategorized

deaconti

4 respostas

  1. Vi nas fotos o ritual da entrega da pedra que você carrega na vida , espero que Santiago tenha atendido seu pedido de transforma-la dai em diante em uma nova pessoa pessoa com novas atitudes de vida..
    Pé na estrada Maria Bonita tenho inveja de você

    Curtido por 1 pessoa

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