Menu Início

Quando o diabo não é tão feio quanto se pinta

Querido amigo, estou atrasada nos relatos. Já estamos em 05/04 e, nesse momento, estou na cidade de Villalba. É sábado, são 11h55min e estou sentada em uma praça, agradabilíssima, escrevendo para você e assistindo a um show de jazz, ao vivo. Acabei de me livrar de mais 2,3kg de peso, enviando, através do correio, tudo aquilo que considerei poder descartar, nesse momento. Enviei para mim mesma, lá para Santiago de Compostela, seguindo o conselho de outra peregrina, a Deise Fernanda, que já esteve por aqui, em outro momento.

Perdoe-me não estar escrevendo com maior regularidade, é que nem sempre é fácil encontrar tempo e lugar para fazê-lo. Mas, vamos lá! Estávamos em Valcarlos, depois da primeira viagem.

Naquela noite, fui me deitar antes da maioria dos peregrinos. Dormi quase em seguida, pois estava exausta. A certa altura da madrugada, acordei e não me dei conta de onde estava. Sabe aquele primeiro momento, em que, na confusão dos sentidos, você se perde? Daí, o inusitado. Percebi que não estava sozinha. Havia alguém roncando ao meu lado. Foi um repente de voltar atrás, no passado, e, em seguida, perceber que aquilo era impossível de estar acontecendo. Sentei-me, rapidamente, na cama, e olhei para trás. Foi quando me dei conta de onde estava. No quarto do albergue, enfileiravam-se duas carreiras de quatro e três beliches. Eu estava logo no primeiro, perto da porta de entrada, na parte de cima. Ao meu lado, o emissor do ronco. Não sabia de quem se tratava, pois tinha ido me deitar antes dele, mas, com o meu vizinho de cama, comecei a viver a minha primeira experiência em albergues.

Não há separação entre homens e mulheres, nos albergues. Os peregrinos vão chegando e, em seguida, tomando posse de suas camas. Os banheiros também são coletivos e sem discriminação por sexo. Quando me preparava para viajar, uma das minhas preocupações era o que eu usaria para dormir e acabei escolhendo uma calça e uma camiseta, de malha, bem leves e macias. Nessa primeira noite comecei a perceber que cada um dorme como quer, sem a preocupação com o outro. O objetivo é descansar o corpo, do esforço da caminhada, e isso tem que ser feito conforme o critério individual de conforto. Meu vizinho de cama, por exemplo, estava absolutamente à vontade, dormindo de sunga, por cima do cobertor. Sentada na cama, ouvindo o ressonar dos peregrinos, o remexer de um corpo ou outro, lá embaixo, nas outras camas, a visão do corpo do meu companheiro de jornada, estendido entre as cobertas, naturalmente, em sua sunga, o seu ronco… Tudo aquilo me deu uma sensação de bem estar, de tranquilidade, de paz. Eu começava a me sentir em casa.

A dimensão da naturalidade do corpo e das coisas que fazemos todos os dias, sem nos darmos conta do quanto são parte da nossa rotina biológica e, também, dos nossos costumes, se amplia, ainda mais, quando, de manhã, há o alvoroço do acordar para se preparar para mais um dia de caminhada. Entre os cumprimentos de bom dia, em várias línguas, o espaço do quarto e banheiro é ocupado pelo vai e vem dos peregrinos, que, apressados, escovam os dentes, lavam o rosto, usam os vasos sanitários, trocam de roupa, arrumam suas mochilas, conferem seus documentos…

Naquela manhã acordei bastante dolorida. Ainda estava impactada com o primeiro dia de caminhada. Comecei a arrumar as minhas coisas, mas ia no meu ritmo, ou seja, sem correria. Descobri que o meu vizinho de cama era um dos italianos, que eu havia encontrado no dia anterior. “Buon giorno!”, acenou ele para mim, com aparência de quem passara uma noite de rei. Da cozinha, vinha o cheiro do café e o barulho animado das conversas. Fui até lá e entrei na faina coletiva do preparo da refeição da manhã. Um francês, Gilles, perguntou se eu estava melhor e eu respondi que me sentia bastante dolorida, mas que estava melhor. Ele disse “Bom, porque hoje vai ser bem pior!”. Com essa frase, Gilles foi o responsável por fazer da jornada Valcarlos-Roncesvalles menos dura do que poderia ter sido. Sei seu nome porque assinei o livro do albergue em seguida a ele.

20140405-093543.jpg

Saí do albergue um pouco depois dos meus companheiros. Isso tornou-se rotina. Gosto de de fazer as coisas no meu tempo. Perguntei a um morador a direção que eu deveria tomar e ele apontou, seguro, “O Caminho é por ali.”. Todos sabem o que estamos fazendo. E são extremamente gentis, ao nos auxiliar. Passei por um mercado, onde comprei chocolate, uma baguete e um pedaço de queijo. E iniciei a caminhada.

Eu sabia que se tratava de uma subida de 700m – estou falando de um nível para o outro -, supostamente a uma distância de 12Km. Supostamente, porque tenho visto que há divergências, de um indicador para outro e minha pulseira, que é guiada por GPS, sempre acusa uma diferença, considerável, para mais. Juntando os dados à advertência de Gilles, passei a me preparar psicologicamente para a subida. E estava, em princípio, muito assustada.

A primeira parte da caminhada é feita pela estrada. Mais ou menos 9Km. Caminhamos pelo acostamento, esperando que os motoristas atendam aos avisos esparramados em placas de advertência, de que ali há peregrinos. Foi uma subida dura, e eu a fiz devagar, sempre parando um pouco, quando o fôlego me faltava. Após esse trecho, deixa-se a estrada para caminhar um tanto por um atalho, mas, em seguida, voltamos à estrada. Isso acontece mais uma ou duas vezes. Logo nesse primeiro desvio, começou a chover. Em princípio, uma garoa, porém, mais à frente, ela se intensificou. Parei para cobrir a mochila e me encapotar um pouco mais, já que estava esfriando e eu me encontrava bem desagasalhada. A essa altura uma peregrina passou por mim. Uma argentina, Madalena, de Cerro Corá, da Província de Misiones. Madalena, uma jovem de 23 anos, estava com dores terríveis nos pés, segundo ela, coberto de bolhas. Eu a ajudei a colocar a capa e seguimos, juntas, o resto do percurso. Tive que diminuir, ainda mais, o ritmo da caminhada, pois a pobre Madalena mal conseguia pousar os pés no chão. Fomos conversando e rindo das nossas aventuras, dividimos o pão e o queijo e, conversa vai, conversa vem, chegamos ao maravilhoso bosque, que nos levaria até Roncesvalles. Quando avistamos o sisudo monastério, eram 19h20min, chovia muito e estávamos exaustas. Foi então que voltei a me lembrar de Gilles… Adoraria reencontrá-lo para agradecer a ele o pavor que sua advertência havia me causado. Esperar pelo pior me fez achar o difícil apenas… difícil.

Convidei Madalena para beber uma taça de vinho, em um bar, logo na entrada de Roncesvalles, mas ela encontrava-se alucinada, por causa dos pés, e preferiu seguir diretamente ao albergue. Nos despedimos ali é, até agora, não nos reencontramos. Enquanto bebia o vinho, fiquei sabendo que, no albergue do monastério, o horário máximo de saída dos peregrinos era às 8h. Isso não combinava com meu ritmo, nem com meu cansaço. Como ali mesmo havia um serviço de hospedagem, resolvi ficar. Fui dar um giro pelo monastério, antes de escurecer, e só depois me recolhi.

E foi assim, meu amigo, que terminei o segundo trecho da caminhada. Dormi sozinha, naquela noite. Dormi pensando que se nada mais desse certo, de ali em diante, eu já havia conseguido.

Ainda não é noite, Cetê, então lhe desejo um ótimo dia! Farei o possível para contar o resto, mais breve.

20140405-142051.jpg

20140405-142107.jpg

20140405-142121.jpg

20140405-142136.jpg

20140405-142532.jpg

20140405-164708.jpg

20140405-165019.jpg

20140405-165059.jpg

20140405-165146.jpg

20140405-165208.jpg

Anúncios

Categorias:Uncategorized

deaconti

8 respostas

  1. Deinha, agora estou confiante que conheceremos o caminho de Santiago por su ojos, você encontrou seu ritmo, entendeu o sentido da sua viagem; assim como eu, acredito que todos que aqui estão acompanhando suas postagens gostaríam de estar ai, dividindo estas experiências e esta taça de vinho que a Madalena não tomou, ergueríamos a taça e brindaríamos em voz alta, no puro estilo espanhol ” Que nosostros siempre tengamos salud,peseta e fuerza en la braguilha”

    Curtido por 1 pessoa

  2. Dea, tô adorando seus textos e adorei a foto de vc encapotada, rsrs. Que experiência mais rica, hein!
    Aguardo seus próximos textos. Boa caminhada,
    beijos, Cláudia.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: