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They Shoot Horses, Don’t They?

Conhece esse livro, Cetê? Escrito por Horace McCoy, no Brasil foi lançado como Mas não se matam cavalos? A narrativa se passa nos anos 30, nos Estados Unidos, durante a Grande Depressão, período em que a imensa maioria da população encontrava-se desempregada e desesperada para achar um meio de viver com dignidade. É nesse contexto que começam a aparecer expedientes dos mais insólitos, entre eles, os famosos concursos de dança, nos quais os competidores eram testados ao extremo de suas resistências, dançando durante horas e horas, sem parar para comer ou dormir. O casal vencedor do concurso recebia, ao final, alguns trocados, um punhado de comida e algumas peças de roupa. No fim dos anos 60, Sydney Pollack adaptou para o cinema e nós o recebemos como A noite dos desesperados. Ontem, enquanto fazia o percurso Saint Jean-Valcarlos, a partir da segunda metade do percurso, esse filme não me saia da cabeça…

Ainda em Saint Jean levantei-me cedo, tomei o café e fui buscar um lugar onde pudesse utilizar a internet. Depois, passei pelo centro de acolhimento aos turistas, onde deixei guardada minha mochila, e sai para fazer uma rápida caminhada pelo centro histórico da cidade. Fui conhecer a Cidadela. Desde sua fundação, no século XII, até o século XVI, a cidade de Saint-Jean-Pied-de-Port, Donibane Garazi em basco, pertenceu ao reino espanhol de Navarra. Torna-se domínio francês, em 1589, todavia, não há dúvida, continua basca. Em 1989 foi declarada, pela UNESCO, Patrimônio da Humanidade.

A muralha da Cidadela se abre em quatro portas ogivais, que dão para ruas calçadas em pedra antiga. A arquitetura das casas, com seus telhados sobressalentes, estão preservadas. Algumas continuam sendo moradias, outras transformaram-se em lojas ou restaurantes e cafés. Em cima das portas de entrada, de cada uma das casas, há inscrições variadas, cujo significados não compreendi, mas me deixou curiosa. Subi até o forte, onde se encontra a Igreja gótica Notre-Dame-du-Bout-du-Pont, que é parte das fortificações. Interessantíssimo caminhar pelas muralhas e observar os quintais das casas, em sua maioria transformados em pequenas hortas. E, de lá do alto, ver as ruas da cidade, os tetos das casas, os campos, os Pirineus… Ficaria mais, não tivesse que começar o Caminho.

Fui até o escritório dos peregrinos, colocar o primeiro carimbo em minha Credencial do Peregrino e, também, buscar orientação para o início da caminhada. Foi ali que soube que o caminho através dos Pirineus estava fechado, por causa da neve e do frio intenso. Teria, então, que fazer o percurso alternativo, até Roncesvalles, ou seja, via Valcarlos. Eram 15h40min. A atendente olhou o relógio e disse “Ok! É um pouco tarde para sair, mas até Valcarlos são um pouco mais de 12Km, em duas horas, mais ou menos, você estará lá. O caminho é tranquilo, praticamente nenhum obstáculo”. Transcrevo como ouvi. A atendente, muito simpática, passou-me um turbilhão de informações, em francês, das quais apreendi 1/3. Apanhei a credencial carimbada, os papéis, o mapa a seguir e sai. Passei no centro de acolhimento aos turistas, para pegar a mochila e parti.

O início do caminho foi tranquilo. Tive algumas dúvidas, durante o percurso, sobre qual direção tomar, quando se apresentavam duas ou três possibilidades, mas era só perguntar a algum morador e, imediatamente, eu me reencontrava. Demorei um pouco a me acostumar a encontrar as marcas das conchas, que são deixadas ao logo do caminho.

A estrada, praticamente toda, era local, muitas vezes de terra, e praticamente deserta. Vez por outra passava um automóvel, em que o motorista acenava, acolhedor. As casas, espalhadas, cá é lá, nos campos, pareciam estar desertas. Mas algumas vezes era possível enxergar um homem ou uma mulher ocupados no cuidado da terra. No mais, passarinhos, lagartos e… água, muitas pequenas fontes de água. O Sol já não era intenso, mas suficiente para fazer necessário o uso do chapéu. A bagagem estava me atrapalhando. Eu percebia que havia muito peso, que estava absolutamente desconfortável carregar a mochila nas costas, mais uma pequena mochila, que eu levava na dianteira, o cajado, a máquina fotográfica, a garrafa d’água… Havia coisas demais e eu não conseguia administrar tudo. Mas continuava a caminhar. Comecei a ficar cansada, porém não encontrava um lugar com sombra, para parar. Mais adiante, quando qualquer local já começava a servir, vi um cantinho, com umas pedras grandes e muita sombra. Coloquei as mochilas sobre as pedras e passei a re-arrumá-las, no sentido de esvaziar um pouco a mochila que eu levava à frente. Foi, então, que enxerguei, pela primeira vez, dois peregrinos. Também pararam por ali. Eram italianos e ficaram felizes por conversar com uma brasileira. Segundo eles, até então só haviam se deparado com americanos, alemães, franceses e coreanos… Terminei a arrumação, enquanto conversávamos um pouco. Coloquei as mochilas, agora mais ordenadas, conforme meu juízo imediato, despedi-me dos italianos e voltei a caminhar. Foi quando o percurso começou a ficar mais difícil.

O Sol estava mais ameno, mas havia um vento intenso, soprando contra mim, e a estrada passou a entremear subidas e descidas, mais íngremes. Nas subidas, o fôlego falhava e o coração acelerava. Nas decidas, os joelhos sofriam terrivelmente. Foi quando comecei a pensar em Mas não se matam cavalos? ou em A noite dos desesperados… Lembrava-me de Jane Fonda e Michael Sarrazin, escorando-se um ao outro, desesperados, sem terem como desistir da competição… A certa altura, os italianos passaram por mim. Eu havia parado para beber água e descansar um pouco. Só fui vê-los, novamente, em Valcarlos. Eles me disseram que faltavam pouco mais de 6Km, à frente, e o número me deixou aliviada. 7Km?! Tranquilo! Mas não foi. Havia mais subidas que descidas e eu estava muito cansada. Quando passei por um centro de vendas, recordei-me de que a assistente me recomendara comprar alimentos, por ali. Todavia, ignorei a recomendação. Não consegui me imaginar entrando em um supermercado e, menos ainda, carregando mais peso. Segui em frente, passei por um pequeno povoado, Arneguy, e um senhor me informou que Vacarlos ficava a 3Km a frente. Àquela altura, eu já não sabia avaliar se essa era uma boa ou má notícia. Segui caminhando, agora, por uma pequena estrada asfaltada. Foram os três quilômetros mais longos, até então. Aqui não se mata cavalos… O que eu estava fazendo ali?! Minha vontade era parar. Mas estava de olho no relógio, pois escureceria às 21h e já eram quase 19h. A atendente me dissera que seria um percurso de mais ou menos duas horas e já fazia mais de três horas que eu estava caminhando. Segui em frente. A certa altura parei, abri a mochila e comecei a descartar algumas peças de roupa, que deixei ali mesmo, na beira da estrada. Eu não podia pensar em outra coisa a fazer: precisava diminuir o peso da mochila. Então, tirei, não sei de onde, uma força e continuei a caminhar. De repente, vi, ao fundo, a cidadezinha de Valcarlos. Cetê, será que você consegue avaliar o tamanho da minha alegria? Mas, como nem tudo que reluz é ouro, Valcarlos fica no alto do vale. Então, querido amigo, chegar lá levou, bem, uns 30min. Lembra-se da Gabrielle Andersen, aquela atleta suíça que, nas Olimpíadas de 1984, em Los Angeles, chegou cambaleando ao estádio, levando 10 minutos para completar os últimos 200m? Pois eu me senti a própria. Não havia, mais, pernas e, à minha frente, uma subida como a da Ladeira Porto Geral, só que mais longa. Subi chorando. Quando cheguei lá em cima, um casal de peregrinos, franceses, me avistou e correu para me auxiliar. Levaram- me ao albergue, em que estavam hospedados. Ali, depois de descansar por meia hora, tomei um banho, depois uma sopa de legumes, que as mulheres peregrinas haviam feito, e fui para a cama. O corpo inteiro doía… They Shoot Horses, Don’t They?… Não havia prêmio em dinheiro, nem roupas… Um prato de sopa, uma acolhida calorosa e um sentimento misto, entre estar feliz, por haver conseguido, e a dúvida quanto a ter forças para prosseguir.

Saint-Jean

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Um pouco do Caminho a Valcarlos

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Categorias:Uncategorized

deaconti

18 respostas

  1. Fico aqui entre o desespero de demorar a chegar e alegria de ter chegado afinal… Chegar onde? Que diferença faz, dizem que chegar não é a meta, mas caminhar é….Siga enquanto puder, enquanto quiser, enquanto der e até onde for…Reduzir a bagagem foi uma boa decisão (desde que não tenha desprezado agasalhos de que precisará). Se posso sugerir, sugiro que alivie também as expectativas – as suas e as que possa achar que outros têm – simplemente caminhe. Sem força, sem esforço, até sem motivo, talvez, só com a vontade de caminhar… Beijos e obrigada por compartilhar as cartas a Cetê.

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  2. Pole pole, é assim que me falavam na subida do kilimanjaro. Significa: um passo depois o outro. É como um mantra, para fazer da caminhada uma meditação. Um estar no presente do aqui e agora e focar simplesmente na passada que segue.
    Parabéns pela caminhada, pela superação
    Grata por compartilhar
    Beijos
    Obs: Talvez o povo basco seja aparentado com os mineiros “ah, é logo ali pertimmm” e e vai ladeira!!!! Kkkkk

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  3. Ufa! Cansei junto! Senti uma vontade imensa de ter aqui um tele transporte e te mandar a scooter do velho pai. As fotos são máximo! Adoraria percorrer esses caminhos, mas de scooter.

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  4. Já viu que duas horas de um não são necessariamente as mesmas para outro, permita-se ter uma margem. Vc não tem horário obrigatório para chegar, respeite seus limites. É a sua caminhada, não deve se tornar seu tormento… Juízo. Bjs

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  5. Começou com tudo hein Dea! Torci, ri, sofri e celebrei com seu post… As fotos estão ótimas, mas posso pedir uma coisa? Cadê você? Manda uma pro Cetê e pra gente. Pede para alguém tirar, ou faz o famoso selfie. Pelo que vejo você anda bem mais corajosa que a gente no topo da África. Lá tinha gente carregando nosso mochilão e iámos só com água, lanchinhos, câmera, documentos e capa de chuva. Não tem esse esquema? Que levem a mochila grande? Carro, cavalo, bike, trem, pônei, sherpa.. no que seja, mas o mochilão bem que podia viajar sozinho. Se não der de jeito nenhum, então larga tudo que não precisar mesmo, 100 gr contam, desde shampo e condicionador, mais roupa, o segundo par de tenis (se tiver) e por aí vai descobrindo que não precisamos de muitas coisas que julgamos importantes. Tenta fazer a mochila pequena entrar na grande, o ideal seria andar sem nada no peito e que alguém te ajude a ajustar a das costas, as vezes, uma puxada nela faz toda a diferença. Beijão, boa noite, e obrigado por compartilhar com a gente.

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  6. Euskal Herrian ongi etorria

    As escritas sobre a s portas significa “casa o sobrenome da família e a data em que a família começou a habitar” escrito em euskara (Basco), meu avô dizia que o próprio demônio pulou da Ponte do Inferno sobre o rio Vale Nive, em Bidarray, furioso por não compreender o euskara, o idioma basco.
    Agora, pare e pense na verdade dita no comentário da Lígia, “Chegar onde?”, lembre que seu objetivo foi conhecer novos lugares, novas culturas, poder sentar nos finais das tardes em uma bodega em uma pracinha destes vilarejos com uma bela taça de vinho e uma porção generosa de jamon e se possível jogar uma proza fora com os locais, este sim tem que ser seu objetivo.
    Então força Deazinha vamos terminar esta viagem, se não estiver a fim de caminhar pegue um ônibus, mais não nos deixe na mão, queremos atravessar os Pirineus com você

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  7. Oi Maria Bonita, ainda estou preocupado com o” Mas não se matam cavalos”, então voltei para conversar mais um pouco com você, lembrar que o peregrino caminha o quanto pode e não o quanto quer e que o objetivo esta em você e não em Santiago de Compostela.
    Faça o caminho se deixando ser tomada pelo encantamento incomum do local e pela sensação de viver alguma coisa inteiramente nova e diferente., pense que atingir se objetivo acontece durante todo o percurso e não apenas no seu ponto de chegada
    Enquanto você caminha você percebera que tudo vai se modificando, a paisagem, as pessoas, os hábitos, o seu interior, acredito que toda a transformação que ocorre nas pessoas que fazem este caminho esta na reflexão e no aprendizado de conhecimento do seu eu, sendo assim, aguce seus sentidos, tenha a mente aberta transforme o imponderável em deliciosas lembranças.
    Pelos seus relatos vejo que você esta tendo um reencontro com a simplicidade, com o despojamento dividindo a morada com pessoas que você não conhece, no episodio em que você parou examinou o interior da sua mochila e descartou fora tudo que você achou que não precisava, foi um exemplo de despojamento de reconhecimento do que nos é essencial na vida.
    Você encontrou estranhos que se tornaram amigos, os italianos, foi amparada por um casal de franceses que te deram alento e alimentação, você deve ter sentido neste momento que pouco, bem pouco, era necessário para se sentir completa.
    Continue, aproveite a oportunidade de conhecer estas paisagens, os lindos vilarejos mediáveis as belas igrejas, o vinho a culinária estonteante, reflita e conheça a si própria, resgate aquela Déa que foi posta de lado em decorrência das obrigações lhe impostas pela vida, traga ela de volta.

    Pole Pole Pole!

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