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Do imponderável

Eu sabia, Cetê, que ele iria acontecer, em muitos momentos da caminhada. Só não imaginei que fosse acontecer tão cedo. O imponderável. No plano inicial, eu chegaria em Pamplona e, imediatamente, me dirigiria a Saint Jean. Porém, acabei chegando à noite e optei por pernoitar em um pequeno hotel, bem próximo ao aeroporto. Eu digo optei, mas, na realidade, não haveria opção. Como vi, mais tarde, nem um taxista faz esse percurso à noite, bem como o último ônibus sai de Pamplona para Saint Jean às 17h30min. De qualquer forma, eu estava tão exausta, por conta da maratona da viagem, que chegar ao hotel e tomar um demorado banho de banheira foi o melhor dos mundos. Saí do banho e fui direto para debaixo das cobertas. Ali, aproveitei a mordomia do wi-fi para fazer uma série de coisas, que haviam ficado pendentes, com a correria dos preparativos da viagem.

Um episódio lateral. A certa altura da noite, comecei a sentir sede. Eu já havia me dado conta de que esquecera de pegar água, mas não tive coragem de vestir a roupa, outra vez, para ir buscá-la. Fui perceber, mais tarde, que esse erro eu não posso cometer mais. Acordei, de madrugada, bastante desidratada e o que me salvou foi um pote de iogurte, lanche do último voo, que eu havia guardado na mochila.

Ontem, pela manhã, logo que acordei, fui conversar com a garota da recepção do hotel. Ela me informou sobre as possibilidades de chegar a Saint Jean. Uma seria tomar um ônibus até Roncesvalles (sai às 14h30min) e, de lá, um táxi até Saint Jean. Seria mais econômico que partir de táxi desde Pamplona. A outra opção, o tal ônibus direto até Saint Jean. Em ambos os casos, eu chegaria muito tarde, o que inviabilizaria o início da caminhada, ainda ontem. Optei por fazer um gasto extra e pegar o táxi ali mesmo. Tentei contatar, por telefone, dois albergues, para ver se haveria algum outro peregrino para ir comigo. Porém, em ambos, ninguém respondeu à ligação. Conclusão, chamei um táxi que me havia sido recomendado, ainda no Brasil e vim a conhecer Nacho.

Nacho me apanhou no hotel, me levou até o Centro, onde comprei uma tarjeta telefônica, com direito à internet. Segundo informação da atendente do hotel e também de Nacho, o serviço de internet móvel, na Espanha, é bastante sofrível, pois encontra-se saturado. O que, para nós, brasileiros, não é novidade. Ambos recomendaram a Moviestar, como sendo a companhia menos pior, por ter cobertura mais ampla. Comprada a tarjeta, iniciamos a viagem.

Cetê, o Caminho já estava começando, sem que eu o soubesse. O trajeto, de carro, costuma ser feito em 1h30min. Levamos 2h10min. A estrada, Pamplona-Saint Jean, é de uma sinuosidade torturante. Resultado: logo no início da viagem, comecei a me sentir mal, mareada. Nacho foi de uma tranquilidade e paciência incríveis! Paramos por oito vezes, para que eu pudesse vomitar e… Respirar! A paisagem era de incrível beleza, porém eu quase nada desfrutei, preocupada que estava em não sujar a linda Mercedes do meu, agora, amigo. Enquanto descia, vi vários peregrinos subindo os Pirineus. Nacho, então, comentou que a maior parte dos peregrinos começa o Caminho a partir de Roncesvalles, para evitar a parte mais difícil, que é esse percurso dos Pirineus. “Só os mais corajosos, como a senhora, partem de Saint Jean…”. Agradeci, mas pensei com meus botões: corajosa ou metida?! Por enquanto não sei.

Cheguei em Saint Jean extremamente enfraquecida. Despedi-me de Nacho, agradecendo-lhe o apoio e pagando os 90€ mais bem gastos até aqui. Se eu tivesse vindo de ônibus, não sei como teria me virado. Teria, certamente, passado grande constrangimento. Em Saint Jean, consegui, nem sei como, chegar a uma oficina de turismo. Ali peguei o hotel mais barato e mais próximo, pois sabia que não iria aguentar caminhar mais que 200m. Também necessitava de descansar e não poderia ir atrás de acomodações peregrinas. No hotel, fui acolhida imediatamente, com apenas meia ficha preenchida. Entrei no quarto, arranquei a roupa, tomei água e comi um pouco de sal. Deitei-me e só fui acordar quatro horas e meia depois, sentindo-me muito fraca. Coloquei a roupa. Eram quase 19h, mas parecia meio da tarde, tão iluminado estava o dia. Aqui, o Sol desaparece por volta das 21h. Saí em busca de um lugar para comer. Desejava, muito, uma sopa, mas não foi possível. Ainda não consegui compreender, mas os restaurantes ou estavam fechados ou não serviam refeição à noite. Depois de andar e andar, indicaram-me um lugar, pelo qual já havia passado, ao lado do rio e bem próximo ao hotel onde eu estava hospedada. Pratos campesinos, de origem basca. Aliás, Saint Jean é, toda, basca. Refeita, voltei ao hotel, aproveitei para fazer algumas tarefas do trabalho e voltei a dormir.

Amanhã vou andar um pouco por Saint Jean, antes de começar a subida dos Pirineus. Don Reche, um amigo recente, um experiente peregrino que tem me auxiliado bastante, indicou-me preciosidades a serem conhecidas, nessa linda cidade francesa. Também seguindo seu conselho, farei os Pirineus em duas etapas.

Querido amigo, por enquanto é o que tenho para contar. Volto a falar com você, assim que puder. Envio algumas fotos de Saint Jean. Amanhã terei mais. Um grande beijo e boa noite, Cetê!

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Categorias:Uncategorized

deaconti

11 respostas

  1. Que graça de lugar… O bom de uma viagem de peito aberto são as possibilidades de (entre outras) encontramos com gente do bem, que ajuda, apoia e dá direções – isso não tem preço. Beijo e boa caminhada.

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  2. Oi PeregrinaOi Peregrina! Assim é o Caminho…, nenhum dia é igual ao outro. Cada dia, novas alegrias, algumas tristezas, momentos de euforia, ansiedade, dores, cansaços…, um autêntico caleidoscópio!
    Apenas uma advertência: Para subir os Pirineus siga pela Rota de Nopoleón, nunca por Vallcarlos por onde você desceu com o Nacho. Quanto a água você pode consumir das torneiras dos hotéis ou refúgios. Na França e na Espanha não existem as famigeradas caixas-d’água existentes no Brasil. A água é canalizada diretamente e não há nenhum problema.

    ULTREYA Y SUSEYA!

    Fraternal abraço peregrino

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